Nos últimos doze meses, a Espanha registrou o encerramento de 530 propriedades leiteiras – uma média de 1,5 unidades por dia – reduzindo o número total de fazendas para 8.600. O principal gatilho desse êxodo é o aumento de custos operacionais, que ultrapassam 6 centavos de euro por litro, impulsionado por uma alta de cerca de 30% nas contas de energia e nos preços de alimentação animal.
Apesar da diminuição do número de produtores, a produção nacional de leite continua em ascensão. Contudo, o preço pago ao agricultor recuou de €0,502/L em maio de 2025 para €0,477/L em maio de 2026, com quedas ainda mais acentuadas nas regiões tradicionalmente fortes, como a Galícia. Essa divergência entre volume e remuneração reduz a margem de lucro, tornando inviável a manutenção de pequenas propriedades.
A COAG (Confederação de Organizações Agrícolas) alerta para a chamada “uberização” do setor: grandes fundos de investimento, multinacionais de alimentos e plataformas de comercialização assumem o controle da cadeia, transformando o produtor autônomo em mão‑de‑obra terceirizada. Esse modelo concentra valor nas cabeças de cadeia, transfere risco para o campo e acelera o esvaziamento rural, com impactos sociais como a diminuição da população e da atividade econômica local.
Em resposta, a COAG propõe um Plano Estratégico que prioriza a sustentabilidade social da pecuária. Entre as medidas estão: estabelecimento de preços que cubram custos reais com base em estudos independentes; contratos‑padrão vinculados a esses custos; proteção legal contra ofertas de má‑fé que mascaram cláusulas desfavoráveis; redução da burocracia que onera pequenos produtores; e incentivo à rotulagem de origem europeia para valorizar o leite de proximidade. Além disso, recomenda a criação de serviços públicos de substituição de mão‑de‑obra, eletrificação das propriedades e promoção de circuitos curtos de comercialização.
Para os tomadores de decisão brasileiros, a situação espanhola serve como alerta estratégico. A concentração de mercado e a pressão sobre custos podem se repetir no Brasil caso haja aumento de energia e insumos sem ajustes de preço. É imprescindível monitorar a legislação MAPA e as normas do SIF, garantir que os contratos reflitam custos reais e investir em tecnologias de eficiência energética. Além disso, fortalecer cadeias curtas e rotulagem de origem pode criar diferenciação competitiva, protegendo margens e incentivando a renovação geracional no campo.
📰 Fonte: MilkPoint — Giro de Notícias